
No dia 16 de abril, a gaúcha Debora Noal botou nas costas uma mochila que nunca passa dos 10 quilos. Dentro dela, uma lanterna de cabeça, como as que os mineiros usam, adaptadores de todos os tipos para computador, um gel para lavar as mãos, lenços umedecidos para o banho, um kit de colher, garfo e faca, um canivete, duas camisetas da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), duas calças jeans, um lenço cor-de-rosa para usar na cabeça em regiões muçulmanas, uma jaqueta térmica, um par de havaianas e outro de tênis, um laptop e um dicionário de português/francês/inglês. Levou ainda uma velha boneca da Magali, personagem do criador Maurício de Sousa, que troca de cara (feliz, triste, zangada, etc), para ajudá-la no atendimento a crianças nos lugares mais remotos e perigosos do mundo. Aos 30 anos, a psicóloga Debora partiu para sua décima missão na MSF. Depois de uma preparação de alguns dias em Genebra, hoje ela está no Quirguistão.
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Em 2010 houve um conflito étnico entre uzbeques e quirguizes no país da Ásia Central, ex-integrante da antiga União Soviética. Muitos morreram e muitos foram presos. Debora passará de quatro a seis meses trabalhando nas prisões do “Quirgui”, como ela diz. Além de duas missões no Brasil, desde 2008 ela atua em países que a maioria de nós não sabe pronunciar o nome nem onde fica – ou apenas conhece pelo noticiário internacional. Começou pelo Haiti (três vezes, incluindo a República Dominicana), Guiné-Conacri, República Democrática do Congo (duas vezes), e recém voltara de um campo de refugiados do conflito na Líbia quando foi recrutada para o Quirguistão. Sem saber que seria despachada para um país frio, tinha acabado de raspar a cabeça para mudar de estilo.
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Dias antes de sua partida, entrevistei Debora por três horas em seu pequeno apartamento em Aracaju, capital de Sergipe, cidade tranquila e praiana que ela escolheu para voltar depois de cada partida. É um apartamento despojado e muito colorido, povoado por lagartixas e girafas artesanais que ganha de presente. Perguntei a ela a razão de tantas cores. E Debora me explicou que as cores são a forma encontrada por ela para representar a variedade de cheiros que seu contato com um mundo diverso de humanidades lhe proporciona – um universo olfativo impossível de definir em palavras. Era desse mundo muito mais rico – que Debora alcança e nós não – que eu queria saber.
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Nascida e criada na gaúcha Santa Maria, Debora cursou Psicologia em Santa Cruz do Sul porque buscava uma faculdade comunitária. Depois, trabalhou no Fórum Social Mundial de 2005 e, quando o evento terminou, tentou pegar uma carona para Manaus. Não conseguiu. Acabou em Recife, onde instalou CAPs (Centro de Atenção Psicossocial) em duas cidades do interior pernambucano. Saiu de lá para fazer residência em Saúde da Família em Sobral, no Ceará, mas concluiu que, sem praia, não suportaria o calor de mais de 40 graus. Acabou em Aracaju, onde fez Gestão de Saúde Pública e Saúde Coletiva. Tornou-se funcionária da secretaria estadual de Saúde e percorreu 28 municípios do Baixo São Francisco para compreender as necessidades da população e organizar o atendimento. Até hoje não tem plano de saúde privado e só reserva elogios para a cobertura do SUS na capital sergipana.
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Neste ponto da história, a MSF entrou na vida de Debora e o mundo virou – o que era longe ficou perto. Como em filmes de suspense, ela recebe ligações do tipo: “Debora, temos uma missão para você”. Mas, ao contrário do cinema, em que são espiões equipados com armas de última geração que recebem esse tipo de chamada, Debora parte em missões humanitárias. E arrisca a própria vida armada apenas de conhecimento e da ideia de que a humanidade inteira é sua família.
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Debora nos apresenta uma realidade que, não por acaso, pouco chega até nós. Depois de ler sua entrevista, pode parecer difícil acreditar. Mas raras vezes conheci alguém tão leve, transparente e feliz. Os olhos de Debora brilham enquanto conta sua experiência. Nos momentos de maior brutalidade se turvam – e depois voltam a brilhar. Ela não perde nenhuma oportunidade de rir e sua voz é sempre suave. E, quando abraça as pessoas, abraça. Dá vontade de se tornar amiga dela pelo resto da vida. Deve ser por isso que a legião de amigos de Aracaju a espera no aeroporto com champanha e balões quando ela chega estropiada de mais uma missão.
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É isso. Debora é com certeza uma das pessoas mais vivas que conheci. E esta é uma entrevista ao mesmo tempo chocante e inspiradora. Dois adjetivos que só alguém com as qualidades de Debora, capaz de arrancar esperança nos cenários mais brutais, poderia acrescentar a um mesmo substantivo. Por isso, foi também uma entrevista muito difícil de cortar. Depois de bastante sofrimento, consegui deixá-la em um terço da original. E guardar o restante para outro momento. Vale cada linha. E meu sonho é que todos possam lê-la e ser movidos pela vontade de compartilhá-la com os amigos e também com desconhecidos.
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A foto abaixo foi escolhida por Debora e feita em Porto Príncipe, no Haiti, em 2009. A criança em seu colo se chama Estelle. Sua família queimou suas duas mãos e seus dois pés numa chapa quente, causando queimaduras tão graves que a menina correu o risco de sofrer a amputação dos membros. Durante todo o tratamento, Estelle só aceitou o toque de uma pessoa: Debora.
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O que Debora diz é vital. Espero que, ao ler a entrevista a seguir, cada leitor possa alcançar Debora e incluir uma porção maior de mundo dentro de si.
Eliane Brum
Leiam a entrevista AQUI
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Um dos comentários deixados na revista:
Fora de série!!!
Débora e Eliane: a junção entre uma rica e densa história de vida e a competência para narrar os fatos produziu um grande momento do jornalismo. Impossível assim de relance absorver todas as lições contidas nesse vigoroso texto. Mas quem leu com atenção certamente há de mudar muitos conceitos e atitudes em relação aos seus semelhantes. Parabéns às duas e que Deus as ilumine, sempre!
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Minha resposta para Graça Lenzi que me enviou esta matéria:
Bom dia minha querida Graça!
Hoje eu parei minha vida e sentei para ler seu e-mail... foi um divisor de águas...agora que terminei a leitura não sou mais a mesma pessoa.
Só posso lhe agradecer...uma entrevista contundente.
Isso é vida...o resto é resto.
Fiquei encantada.
Um beijo grande e mais uma vez MUITO AGRADECIDO.
ASTRID ANNABELLE / MA JIVAN PRABHUTA
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32 comentários:
Também fiquei encantadas, Astrid!
Quanto despojamento e vontade de ajudar, de ser solidária, de se envolver, de estar dentro dos problemas.
Que Deus a ilumine e abençoe sempre para todos os lugares que se direcionar para ajuda!
Adorei conhecer sobre a história desta maravilhosa pessoa.
Para você, um grande abraço, carioca
Amiga querida!!!!
Fui às lágrimas só de ler a introdução aqui no blog. Tô de saída agora, lerei a entrevista mais tarde, quando voltar.
AMOR com letras maiúsculas, é o que senti...
grande bjo
Olá Beth querida!
Que Deus a abençoe muito mesmo!
Fiquei muito mexida com esta entrevista...muito mesmo.
Um beijo gostoso e agradecido.
Astrid Annabelle
Marcelo, meu artista preferido!
Espero que leia mesmo...você vai adorar. É muito forte!
E O AMOR é elevado ao grau máximo.
Beijo grande e agradecido.
Astrid Annabelle
Emocionante essa entrevista! Uma frase ficou na minha cabeça "o que não é possível carregar comigo é porque não é meu." Nem precisa, essa moça já carrega muitas riquezas dentro de si. Riquezas essas que não se pode roubar. Uma pessoa que nos inspira, talvez não a sair pelo mundo a ajudar, mas a estarmos conscientes de nós, da vida, do que realmente nos faz feliz. Um beijo, querida amiga!
Boa noite Astrid!
Pessoas como a Débora, são felizardas, porque esse AMOR tão cheio de Vontade e Ação resolve tudo na vida. São desapegadas de tudo, acho que são verdadeiramente livres. Eu me envolvo demais com a história de pessoas assim... sinto no coração. Bjks.
Bom dia Astrid,
Adorei esta história de vida. Que riqueza e que ideais!
Belo post.
Beijos
António
Uma história que faz a gente ver em ação o verdadeiro amor.
Li toda a entrevista . Emocionante.
Beijos.
Claudinha, minha querida!
Foram vários os momentos de grande impacto nessa entrevista. Sem dúvida a frase que citou é um deles.
A história da fome & dinheiro..., do cheiro humano, só para citar mais alguns...na realidade toda a entrevista é uma aula de vida.
Eu adorei.
Beijo grande e feliz por sua presença.
Astrid Annabelle
Maria Gloria, olá!
A Debora parece com um anjo encarnado.
É muito amor que move seu coração.
Eu sou como você...também me envolvo demais e sinto no coração!
Beijo grande e muito agradecido por sua visita.
Astrid Annabelle
Astrid! Que intesa! Que história de doação e entrega ao próximo.
"A terra existe e o céu resiste a tanto tempo porque não vivem para si, vivem para o próximo."
Que seu mundo fique cada vez mais colorido!
Vou lá ler a entrevista, e comento mais depois com vc.
Grato pela inspiradora postagem! Mesmo.
Oi Astrid
É uma pena que pessoas assim sejam tão poucas no mundo.
Desprovida de exigências para si e com muito amor para distribuir, se entrega de corpo e alma em favor do ser humano.
Uma história muito linda e comovente.
Obrigada por compartilhar.
Bjs no coração!
Nilce
Não é para qualquer um, definitivamente. Vivo no Congo e não tenho esse despreendimento. Tem que ter algo a mais, um diferencial que faça com que esqueçamos até mesmo da nossa segurança pessoal e sinceramente, não tenho essa disposição. Observo de longe e sinto-me atada, fiz trabalho voluntário na
Zâmbia, mas aqui sinceramente eu tenho medo. Bela entrevista, força sobrehumana. Beijocas queridona!
António querido! Boa tarde!
Finalmente posso lhe responder...
essa entrevista mexeu fundo com o meu coração. Gostaria de abraçá-la
[a Debora]!!!!
Um beijo grande
Astrid Annabelle
Pois é meu amigo Élys!
Emocionante é a palavra...emociona a alma!
Beijo grande por sua presença.
Astrid Annabelle
William querido, tenho certeza que irá se emocionar...é muito forte e muito lindo tudo o que ela nos relata.
Fico aguardando...
Um beijo grande
Astrid Annabelle
É isso que penso Nilce!
Mas vamos acreditar que mais pessoas se manifestem com esta intensidade de amor. É uma lição de vida com certeza!
Beijo grande querida!
Astrid Annabelle
Querida Astrid,
Deixei o tempo para trás, e fui ler a entrevista.
Valeu a pena...meu olho brilhou!
E vc tem razão...o resto é o resto...
Obrigada!!!
Mil ternurasssssssssssss
Com toda a certeza Taia querida!
Não é para qualquer um!
Por isso que eu acho que a Debora é um anjo. Sabe que entre os humanos eles existem mesmo!!!!São consciências totalmente diferenciadas e que através dos seus atos se revelam.
Muitos beijos minha amiga viajante!!!!
Astrid Annabelle
Loli e eu vi os seus olhos brilharem......
Um beijo gostoso e ternurento para ti!
Astrid Annabelle
Que desprendimento dessa moça e total apego às pessoas! Uma história de vida ainda escrita e já exemplo para muitas pessoas!
A liberdade é o próprio estado feliz, é a doçura da vida, é o descanso dos homens iguais.
Obrigada, Astrid! Beijus,
Boa noite Astrid!
Depois de ler os comentários, entendi o que quis dizer sobre a Débora ser um anjo ... verdade mesmo!
Parabéns pela postagens. Mostrar solidariedade é um ato de extrema importância em um momento que poucos dão as mãos.
bjs
Luma querida!
É uma daquelas histórias que dá gosto de recontar e repassar...tem um conteúdo riquíssimo para quem souber e puder aproveitar.
Agora essa sua frase:
"A liberdade é o próprio estado feliz, é a doçura da vida, é o descanso dos homens iguais."...achei o máximo!!!!
Um beijo bem grande na bochecha!
Astrid Annabelle
Fico feliz Maria Gloria!
Mais um beijo para uma linda noite e sonhe com os anjos!
Astrid Annabelle
Norma querida!
A solidariedade de fato é muito rara...muito rara.
Por isso que essa entrevista é excepcional! Revela um lado humano possível.
Um beijo grande.
Astrid Annabelle
Astrid,
Passei por aqui para reinterar,
Simplesmente, lindo, uma lição de vida, uma aula de como viver em situações controversas.... Tomei um tempo para ler.... ainda estou tomando fôlego para ler a segunda parte de onde parei a .... Sempre tive vontade de fazer uma missão como essas, mais sei claramente que me falta preparo, maturidade, mas não coincidentemente, tive uma experiência paralela que é um grão de areia deste lindo oceano que é a vida desta pessoa que pode tocar muitas outras, dentro deste vasto do oceano e netuno :) Beijos e um Bem Hajas !!! Grata Sempre !!! Partilhadissimo....♥
Bom dia Hanah!
Esta entrevista fez brilhar todos os meus neurônios...
Depois de a ler na íntegra ficamos com a nítida sensação de nunca tivemos problema na vida...concorda?
Um beijo grande por todo o seu carinho de sempre.
Astrid Annabelle
Astrid
Primeiro, deixe me desculpar pela minha ausência aqui. Sei que você leu no meu blog sobre a minha dificuldade em visitar todos, mas é que eu gostaria de estar sempre em dia com tantos blogs bons e amigos.
E sobre esse texto, a entrevista da Débora. Que coisa rica. Ainda bem que existem pessoas assim, senão o que seria do mundo não?
beijos
Olá Macá, que alegria em ter você por aqui hoje!
Nem precisa se desculpar...sei muito bem como é...também não estou conseguindo visitar todos os amigos!
Esta entrevista é um achado valioso! Linda história muito bem contada e escrita por outra pessoa linda ...a Eliane Brum.
Para ser lida, relida e repassada.
Um beijo gostoso e muito agradecido por seu carinho de sempre.
Astrid Annabelle
Olá querida Madrinha Astrid, li a entrevista toda e no fim as lágrimas corriam-me pela cara abaixo.É um exemplo de vida a seguir mas que não é para todos.Há que ter-se muito estofo psicológico para aguentar.Um bem haja à Débora!Beijocas grandes.
Olá Mimi!
Nisso você tem razão...é preciso ter o dom, o desprendimento para se doar a pleno.
São poucas as pessoas que estão disponíveis para tal missão..que é lindo, mas muito sofrido.
Não deixa de ser emocionante!
Um beijão agradecido por sua visita querida afilhada.
Astrid Annabelle
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