porque me atrai
esse ser impossível
que sou
esse ser que me nega
para que seja ainda eu
Porque desejo esse alguém
que me invade e me ocupa
que me usurpou a palavra e o gesto
me fez estrangeiro do meu corpo
e me deixou mudo, contemplando-me.
Lanço-me na procura da minha pedra
no infindável trabalho
de me reconstruir
recolhendo os sinais do meu desaparecimento
percorrendo o revés da viagem
para regressar a um lugar inabitável.
Todas as vezes que me venci
não me separei do meu sonho derrotado
e, assim, me fiz nuvem
reparti-me em infinitas gotas
para que fosse bebido, vertido, transpirado
e voltasse de novo a ser céu
transparência de azul, harmonia perfeita
e poder regressar ao lugar interior
para me deitar, de novo,
no sangue que me iniciou.
No tempo
em que havia ruas,
ao fim da tarde
minha mãe nos convocava:
E a rua entrava
connosco em casa.
Tanto o Tempo
morava em nós
que dispensávamos futuro.
Recolhida em meu quarto,
a cidade adormecia
no mesmo embalo da nossa mãe.
À entrada da cama
eu sacudia a areia dos sonhos
e despertava vidas além.
Entre casa e mundo
nenhuma porta cabia:
que fechadura encerra
os dois lados do infinito?
In "Tradutor de chuvas", Ed. Caminho.






14 comentários:
LINDÍSSIMO!!!!!!!
Bela homenagem, muito merecida!!
Para além de um poeta, é um escritor e um cronista extraordinário..
O Mia Couto vê muito para lá da medianice e da mesmisse que ainda abunda..
Um abraço e até já, querida do <3
Filomena
Lindos versos, adorei,
bjs
saudades
Olá Astrid,
Bonito post no Navegante. Conheço bem a obra deste meu conterrâneo de país [não de ilha] e também cheguei a conhecê-lo há mais de 30 anos, era ele muito jovem. Gosto das suas estórias. Também gosto das narrativas dele enquanto biólogo, pelo imenso respeito que sente pelo planeta.
Muito traduzido, é mais conhecido pelas seus romances e menos pelos seus poemas, apesar de ele continuar a produzir poesia de excelência.
Já ganhou muitos prémios importantes e, a seu tempo, receberá também o Nobel.
Olho para trás e sinto que o Mia já faz parte, apesar de mais jovem, daquele grupo de poetas moçambicanos que serviram de base à minha tese: João Bernardo Onuana, Eduardo Pitta, Rui Knofli, Eugénio Lisboa, José Craveirinho, António Quadros e muitos outros.
Quanto a esses abaixo assinados da internet, com 1.000 assinaturas são «coisinhas» emocionais das pessoas, que respeito pela intenção, mas não conduzem a nada, pois não é fácil a nenhuma editora do mundo assumir a publicação de todos os poemas de um determinado autor, quando ele já está com 57 anos e tem uma obra «enorme». Como se faz? Num só volume com 2.000 páginas? Numa série de livros ao longo de 10 anos?
Será que o mercado brasileiro de consumo de poesia é assim tão vasto, de modo a uma editora [por rica que seja] encomendar tal tarefa a especialista? Certamente que haverá autores brasileiros ávidos de uma 'pequenina' oportunidade e ninguém lhes dá.
Um grande beijinho e desculpe o testamento.
P.S.: hoje não tem a escolha de recebermos por email posteriores comentários. Este Mercúrio retrógrado.... :))
Olá Astrid!
Como sempre, 'estou a conhecer preciosidades' pelo seu facebook e muito mais pelo Navegante ... gostei também de ver Mia Couto no vídeo.
As Ruas eu adorei! Compartilhando!
Beijos
Hoje eu acordei vendo a entrevista que o Mia Couto concedeu a uma das afiliadas da Globo...e eu adorei ver e ouvir o poeta Filomena...me encantei.
Foi isso..concordo contigo..ele é mesmo para lá da medianice e da mesmisse que ainda abunda.
Beijo grandão, muito agradecido por sua presença e por seu comentário.
Astrid Annabelle
Boa tarde Norma querida!
Olha que faz mesmo tempo que não trocamos nada...estou bem longe do hábito de visitar os blogs amigos com freqüência. Quem sabe essa fase volta...vamos ver.
Os versos do Mia Couto são mesmo muito bonitos.
Um beijo grande , agradecido por sua presença e comentário!
Astrid Annabelle
Boa tarde meu querido António!
Imaginei mesmo que conhecesse o Mia Couto...mas não sabia que não era da ilha!
Tudo o que tenho lido de autoria dele me encanta... estou longe de conhecer toda a obra dele, muito longe!!!
E veja só...eu gostei de assinar a petição. Coisa que aliás nunca faço!!! Vamos ver no que vai dar...
Nem se ocupe pedindo desculpas ...a casa é sua e faz tempo...escreva quanto quiser e como quiser, sempre!
Um beijo doce desejando uma rápida recuperação da sua saúde!!! Se cuida!!!
Astrid Annabelle
É disse bem minha querida Maria Glória: preciosidade! Boa tarde!!!!
Esse poema "As ruas" também mexeu comigo...
Um beijo grandão minha Anam Cara e agradecido por comentar e compartilhar, e por sua presença constante por aqui.
Astrid Annabelle
Boa noite, Astrid
Gostei de ler: «E veja só...eu gostei de assinar a petição. Coisa que aliás nunca faço!»
Muito bom sinal.
Até amanhã.
Boa noite meu querido António!!
Achei graça... ◕‿◕
Beijo e até amanhã!!!
Astrid Annabelle
Olá Astrid,
vim aqui por causa do Mia, ele é um autor editado pela Companhia das Letras aqui no Brasil, esse abaixo assinado vai para essa editora? Os poemas são lindos e ele é minha mais nova paixão, já pocurou se a Cia da Letras não tem nenhum livro de poesia dele em catálogo?
bjs
Jussara
Olá Jussara!
Peço a gentileza de você entrar no link do Facebook do Mia Couto para obter as informações que me pediu.
Vi este abaixo assinado na página do FB.
O link está no meu post. Lá você pergunte para os responsáveis OK?
Ainda não procurei por nenhum livro dele em catálogo.
Um abraço agradecendo a sua visita e o seu comentário.
Astrid Annabelle
Astrid, boa noite!
Encantada eu estou ouvindo Encantamento!
Um grande e gostoso beijão!
Bom dia minha querida Maria Glória...
As trilhas criadas pelo Marcelo Dalla são demais..todas lindas.
Pedi permissão para postar aqui no Navegante do Infinito...ele concordou e eu fiquei assim ◕‿◕
Beijão...tenha um lindo dia!!!
Astrid Annabelle
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